sábado, 15 de maio de 2010

Em algum lugar me encontro deitada - 1958


Em algum lugar me encontro deitada com longos vestidos graves,
como um quadro antigo, tênue de cor, muito sereno.
E reconheço-me.
Não há paisagem nenhuma, apenas um vazio imenso, a luz de um crepúsculo imóvel,
uma grandiosa quietude.
Em algum lugar me encontro assim deitada, sem brisa que me altere, presença que me perturbe.
Do céu à terra, de leste a oeste, tudo é muito longe, infinitamente,
num lugar de nenhum país.
Horizontes de esquecimento circundam a imagem,
a imagem minha que parece venturosa, que descansa em nobre solidão, que talvez esteja sonhando sonhos que jamais conhecerei,
mas que dão aos seus olhos fechados uma plácida curva.
Reconheço-me e ignoro-me.
(Uma noite dentro de outra noite)

Cecília Meireles

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